Trio da Bohemia: Cervejas Artesanais?

Degustamos o trio de novas cervejas da Bohemia e ficou a pergunta: elas podem ser consideradas cervejas artesanais?

Essa discussão me lembrou o caso americano de um consumidor que entrou na justiça contra a Blue Moon por ter comprado o produto acreditando que se tratava de cerveja artesanal. A Blue Moon é fabricada pela Coors. Imagina o tamanho da encrenca. Agora imagina os caras pagando R$ 30,00 numa cerveja de grande circulação. Mas o papo não é sobre a Blue Moon, e sim sobre os três rótulos lançados pela Bohemia!

Caá-Yari, Bela Rosa e Jabutipa, o trio de cervejas artesanais da Bohemia!
Caá-Yari, Bela Rosa e Jabutipa, o trio de cervejas artesanais da Bohemia!

A proposta foi bastante interessante e muito bem vista, por sinal. A Bohemia, cervejaria integrante do mega grupo AmBev, lançou no mercado três cervejas de estilos não tradicionais E com ingredientes fora do padrão. São elas, Caá-Yari, Bela Rosa e Jabutipa. E, depois de provar as três, digo que fiquei muito satisfeito com a experiência, torcendo para que a Bohemia repita a dose (e ouse um pouco mais).

Começando pela Caá-Yari, uma Blonde Ale com erva-mate, digo que o primeiro gole lavou toda a expectativa ruim que tinha e me “decepcionou” por ser muito boa! Você nos acompanha e sabe que já provamos alguns rótulos da marca, como a Bohemia Imperial, e que ela é famosa por não ter nenhum destaque, eventualmente ser até uma cerveja ruim ou de baixíssimo custo/benefício.

Não foi o caso da Caá (ou das outras duas). Uma receita bem construída, bem encaixada no estilo, com o caramelo tendo leve destaque sobre o álcool e o amargor da erva mate deixando sua marca. Um dourado intenso, com uma coroa branca e uma boa carbonatação fizeram desta uma representante de peso do estilo Blonde.

Em seguida, foi a vez da Bela Rosa, uma Witbier com pimenta rosa. Essa é uma receita a ser trabalhada, pois poderia ser um pouco mais refrescante e um pouco mais leve. Não me entenda mal, a cerveja estava boa. Acho que o impacto causado pela Caá-Yari foi tão forte que acabei criando expectativas maiores para as outras duas, mas não o suficiente para desaprovar essa garrafa.

Muito do que acredito que possa ser trabalhado vem da proposta de colocar pimenta rosa na receita. Pimenta em cerveja não é novidade para nós e por isso esperava sentir sua presença. Isso não ocorreu. Como o lúpulo parece ter sido reduzido para compensar a entrada da pimenta, faltou frescor. Também acredito que a OG da receita tenha sido elevada para compensar a pimenta, entrando um pouco de açúcar a mais na receita e quebrar a picância, passando do ponto no corpo.

Como já tinha provado duas, resolvi pegar a terceira. A Jabutipa, uma English IPA com jabuticaba, foi a mais equilibrada de todas. É fato, a jabuticaba só encontrei no nome, mas a receita ficou excelente. De forma elegante, a Bohemia descartou a moda de amargor extremo, mas criou uma IPA para os apaixonados pelo estilo e acertou a mão. Amargor e malte estão bem balanceados, o corpo está em harmonia e o aroma fecha muito bem o conjunto.

Já escuto as cornetas das reclamações da nota que dei no Untappd, mas costumo avaliar o máximo de elementos que posso, incluindo a proposta da cervejaria. Por ser uma ótima English IPA, o fato de não sentir a jabuticaba foi quase irrelevante. Quase.

Em resumo, fiquei muito satisfeito com as cervejas da Bohemia! Mas não posso deixar o debate de fora: elas são cervejas artesanais? Como podemos classificar as cervejas como artesanais? Pelo volume? Pela receita? Pelo método de fabricação? Pela tiragem?

Seriam as Eisenbahns cervejas artesanais? Colorado e Wäls, depois de serem compradas pela AmBev? Saint Gallen e a sua Therezópolis? Talvez o debate não encontre uma resposta e fiquemos com aquilo que um papel escrito em algum lugar por alguém que não é cervejeiro seja tomado como verdade.