Ser Sommelier S5D2 – Escola Americana

A mais jovem das escolas também é a mais exagerada! Estamos falando de você, escola americana!

Escola americana, onde estilos e rótulos são inovadores!

E que comece a escola americana, e eu já vou logo dizendo que estou gripado. Ah, não vai fazer diferença agora, mas já deixo avisado. Afinal, não tem como não ser prejudicado sensorialmente, principalmente em uma escola que preza pelos exageros e, ainda por cima, pelo lúpulo. Ou seja, suas cervejas costumam ser muito aromáticas e complexas e eu perdi muito disso por conta da minha restrição sensorial.

Quando digo exageros, não é mera força de expressão. A ideia aqui é realmente levar a cerveja aos extremos e encontrar os limites de cada componente da cerveja, seja um insumo, um ingrediente incomum (pois é, manteiga de amendoim), um processo ou uma sensação. O que acontece se colocarmos muito mais lúpulo do que o normal em uma cerveja? Até que ponto conseguimos sentir o amargor? Qual o efeito que pedaços de bacon causam na fervura? Essas e outras perguntas tem suas respostas em exemplares da escola americana.

Acredito que todo esse exagero tenha uma explicação simples, a escola é muito jovem, datando de meados da década de 1980. Unindo espirito inventivo, tradicional dos estadunidenses, avanço da tecnologia e abundância de ingredientes, temos como resultado uma infinidade de estilos (veja a parte da degustação para ter uma ideia) com infinitas variações. Some a isso tudo uma veia de marketing bem estruturada e temos a escola com os rótulos mais inventivos e informativos do mercado.

Surfando a próxima onda

Imagine você que tudo o que eu falar aqui aconteceu do início da década de 1990 pra cá, ou seja, não tem 30 anos ainda. Pense que, em 1970, apenas 3 marcas eram responsáveis por praticamente toda a produção e consumo do mercado. Estamos falando de Anheuser-Busch, Miller e Coors, incluindo variações light, super-light, extra light e qualquer outra designação para cervejas que lembravam água envasada.

O primeiro passo da revolução cervejeira da escola americana ocorre quando os estilos ingleses são relidos com uso de lúpulos americanos, inclusive utilizando quantidades maiores do que as receitas originais. Surgem as primeiras American IPAs, registram-se os primeiros usos (patenteados) de dry hopping e late hopping, culminando em Double IPAs, Imperial IPAs e afins. Esse método de dobrar as intensidades permeia os outros estilos, como Stouts e Porters. Hoje, qualquer cervejaria americana que se preze tem, pelo menos, uma boa IPA com algumas variações (single hop, session, double, etc.)

Em seguida, as latas. Sim, um movimento que só vemos hoje no Brasil, surgiu nos EUA no final de 1990, início de 2000. O foco era preservar o frescor e a qualidade da cerveja, além de baratear toda a cadeia de distribuição, do envase ao depósito. Nessa mesma linha de raciocínio, cria-se o Crowler (Can + Growler), uma lata que você abastece na cervejaria e consome em casa, com uma validade maior que a do Growler tradicional.

Surge a NEIPA, New England India Pale Ale

Nessa movimentação de estilos, de leste para oeste encontramos várias diferenças entre cervejas que pertenciam ao mesmo estilo. Uma IPA da costa leste era muito diferente de uma IPA da costa oeste, e isso gerou uma nova designação. Aquelas American IPAs mais tradicionais, menos intensas, receberam o nome de East Coast IPA. Já aquelas que exageravam no lúpulo, as versões Double, Imperial e afins, ficaram como West Coast IPA. Lógico que não é tão preto e branco, há muito mais do que 50 tons de cinza.

Na pegada de inovações, um cara teve uma sacada fenomenal, ninguém parecia estar preocupado em criar cepas de leveduras americanas. Era 2005 quando chega ao mercado a primeira lata de New England India Pale Ale, uma cerveja muito diferente do que o mercado já tinha visto e, o principal, com levedura americana, a Conan. O sucesso foi instantâneo. Também foi instantânea a tentativa de replicar a levedura.

Surgem, então, a Vermont, hoje mais conhecida e difundida, seguida pela London III, mais popular. Todas elas geram cervejas ainda mais frutadas, extremamente turvas (a descrição cera de vela cabe em alguns exemplares) e com bastante complexidade. Aliado ao uso de outros cereais, como aveia e trigo, assim como frutas, ocasionalmente, temos o estilo que dominou o mercado recente e que já encontra variedades até nas escolas mais tradicionais.

Degustação

É uma pena, minha condição realmente prejudicou muito minha análise, com notas que sequer estavam presentes em nenhuma amostra. Isso não diminuiu a potência das degustações da aula, que iniciaram com uma California Common, seguida de uma Session IPA, depois uma American Pale Ale (APA) bem tradicional, Rye (centeio) IPA, American Amber Ale, West Coast (Double) IPA, [se prepare] Imperial Pumpkin Ale Oak Aged With Brett e fechamos com uma Dessert Stout.

Rodada potente de degustações!

Destaque para a última, que foi criada a partir do manjar. Sim, a sobremesa. Vários dos copos ainda apresentavam resquícios de coco ralado. E é esse tipo de cerveja, assim como a Pumpkin, que representa bem a escola americana. Liberdade de criação, desequilíbrio sensorial, inventividade, exageros e resultados únicos, sempre em busca de um estilo ainda não listado. É só imaginar o caso da NEIPA, que foi oficializada como estilo em 2018 (13 anos depois), e com o nome de Juicy or Hazy IPA.

Total de degustações: 102